O Diabo veste pele de Cordeiro

Eu passei algumas semanas sem ter motivação para escrever e eis que a Meryl Streep me abusa do direito de usar um discurso onde ela deveria agradecer a quem em a ajudou em sua carreira para fazer política do mais baixo nível.

Eu não vou me dar ao trabalho de dissecar e mostrar todas as desonestidades intelectuais que ela cometeu em seu discurso. Muita gente já fez isso, melhor do que eu faria (segue o link do colunista da veja sobre o assunto).

Também não vou entrar na discussão se o discurso é dela ou não. Claro que é dela, mesmo que tenha sido escrito por outra pessoa. Ela o endossou ao dar-lhe voz. E não tenho a menor dúvida de sua sinceridade (o que não torna verdade as besteiras que ela disse).

O que eu quero pegar é um pequeno detalhe: o trecho em que ela diz que, “sem os estrangeiros, só nos restaria o futebol [americano] e o MMA”.

Têm várias coisas nessa frase:

  1. A ignorância ao fato que, assim como nas Belas Artes, o futebol americano e o MMA dependeram largamente de conceitos de outros esportes que foram levados ao Estados Unidos por imigrantes.  Nenhum deles é totalmente autóctone. O futebol americano é uma derivação do Rugby, o Baseball do Cricket e o MMA, por sua natureza, junta conceitos de todas as artes marciais, mas foi definido basicamente em cima do “Brazilian Jiu-Jitsu”. Se ela queria citar um esporte puramente americano, deveria ter usado o basquete.
  2. O preconceito contra os esportes, vistos como uma atividade puramente física e portanto, inferior (só essa conclusão – porque atividades mentais são superiores as físicas – já dá uma tese de mestrado). É estranho que uma atriz, que depende do seu corpo para atuar quase tanto como um atleta, tenha esse tipo de visão. Todos os esportes possuem, além do seu componente físico, uma imensa complexidade estratégica e tática e recompensam aqueles que pensam no que estão fazendo.
  3. Ouvindo o seu desdém ao futebol em oposição as artes, parece até que ela passou a carreira encenando Shakespeare. Menos, Meryl, por favor… Você é uma senhora atriz, tem papéis altamente interessantes e complexos, mas você trabalha na indústria de ENTRETENIMENTO. Você fez MAMMA MIA! Não vem tirar essa onda não!
  4. Se os Estados Unidos acabassem, o futebol americano é exatamente o que mais eu sentiria falta. Ah claro, sentiria falta dos filmes pipoca, tipo “Mamma Mia” e dos seriados. Filme-cabeça a Europa sabe fazer (pelo menos sabia, antes de ser invadida pelos árabes).

Por fim, quero lembrar que, diferente do Trump (que começou sua resposta chamando a Meryl de “atriz sobre-estimada” para depois criticá-la, eu me recuso a misturar a profissional com a pessoa. Ela é uma excelente atriz, talvez a maior de todos os tempos do cinema americano. Não tem como ela ser sobre-estimada, Trump. Seu argumento perde força ao fazer isso.

O que não podemos deixar acontecer é achar que o talento que alguém tenha em alguma atividade (seja interpretando outros personagens ou jogando uma bola oval para a frente) nos faça acreditar que essa proficiência seja carregada para as outras atividades que o mesmo ser humano faz.

Dona Meryl Streep, com todos os seus Globos de Ouro e Prêmios da Academia,  é tão qualificada para falar de política quanto eu. E pode ser criticada sim senhora quando fala besteira.

 

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