A cultura da gambiarra

Até o momento, não estão ainda confirmadas as causas do trágico acidente que vitimou mais de 70 pessoas que voavam para jogar a final da Copa Sul-americana, mas existe uma suspeita de que um ousado plano de voo sem parada para reabastecimento tenha contribuído para deixar o piloto sem melhores opções do que tentar um pouso forçado em uma área montanhosa.

Sem querer acusar ninguém nesse caso específico, quero pegar esse gancho para falar de algo mais amplo, com o qual convivemos todos os dias, no trabalho, no transito, em casa…

A nossa capacidade de conviver com as gambiarras.

Seguir regras é chato. Faz tudo demorar mais. Gera necessidade de controles que, em 99% das vezes, não acham nada. Fica mais caro.

E, sendo mais lento e/ou mais caro, as pessoas não querem. Não compram. Ou procuram quem promete fazer em menos tempo.

Todo processo é planejado para trabalhar com alguma margem de manobra. E todos nós pedimos para o cara dar um jeito, entregar mais rápido, fazer a coisa dar certo, etc.

E o fato é que, na maior parte das vezes DÁ CERTO! Os paranoicos que exigiam que o processo fosse seguido a risca ficam com cara de tacho e os otimistas que bancaram a gambiarra são recompensados como heróis, ganham promoção, são incensados como “serem parceiros do cliente”. E, com isso, se tornam mais confiantes, mais ousados e cortam mais caminhos. E, quem era mais conservador, começa a perder o medo e agir da mesma forma.

Nobody wants to be called “chicken”!

Ao mesmo tempo que essa é uma das forças que move a economia e gera produtividade, ela tem seus limites. E o limite não é linear. Não dá um probleminha ou outro de modo que as pessoas vejam que estão exagerando. Ou até dá, mas elas fingem não ver, empurram o problema para debaixo do tapete ou eles são resolvidos na base do improviso por quem está vivendo a situação. Quantos fazem reunião de “lições aprendidas” depois de algo que quase dá errado?

E aí, quando acontece um revés que não deixa espaço para resolver a coisa no heroísmo, a tragédia ocorre e todo mundo se pergunta como é que as pessoas não seguiram as regras..

Alguns exemplos famosos:

  • A explosão do  Ônibus Espacial Columbia – Em janeiro de 1986, o mundo assistiu aterrorizado a explosão do Ônibus Espacial Columbia poucos minutos após o seu lançamento. Descobriu-se depois que a principal causa do acidente era a falha de uma pequena peça de borracha que deveria reter o calor em determinada parte da aeronave. A questão é que A NASA CONHECIA O PROBLEMA. Os testes acusaram o problema, os engenheiros avisaram a gestão, mas pressionados por questões de verba, atrasos e cobranças, eles resolveram bancar. Os técnicos deram de ombros e cumpriram ordens.

 

  • A expedição ao Everest de 1996 relatada em “No Ar Rarefeito” – Duas das principais expedições comerciais de escalada ao Everest foram pegas por uma tempestade no alto do cume e a maior parte dos participantes não sobreviveu. As duas expedições eram tocadas pelos dois melhores guias de montanha do Everest, com as melhores equipes de apoio possíveis. Existia uma regra clara: as 14:00 da tarde, esteja onde estiver, mesmo que a um passo do pico, todos deveriam dar meia volta e voltar. No dia do ataque, o tempo estava bom, e a regra foi solenemente ignorada. O tempo mudou rapidamente e quase todo mundo foi pego no alto do pico. O livro é narrado por um jornalista que estava na expedição e que sobreviveu por ter sido um dos primeiros a completar o cume e ter voltado no horário previsto. Eu preciso lhes dizer que O LIVRO É SENSACIONAL. Se vocês nunca o leram, o façam AGORA. (leiam a minha resenha na Amazon se estiverem interessados).

 

  • A crise imobiliária americana relatada em “A grande Aposta” – O filme é recente, foi candidato a Oscar, mas vale a pena lembrar. Toda a crise imobiliária americana de 2008 é fruto da forma como as hipotecas eram financiadas, através de títulos que as juntavam com várias outras e com isso conseguiam uma rentabilidade muito boa nos mercados de renda fixa. O problema é que a medida que o negócio cresceu, a cessão de crédito ficou cada vez mais “relaxada” e as empresas de classificação de risco fingiram que não viram o que estava acontecendo. Alguns especuladores perceberam o problema, apostaram contra e ficaram milionários.

Eu ainda poderia citar o Titanic, que não tinha botes suficientes para todos os passageiros e que viajou com muito mais velocidade que o recomendado em uma noite fria numa área de icebergs. E por aí vai…

Tenho certeza que todos vocês conhecem exemplos desse tipo na suas vidas. Todos nós cortamos caminhos para resolver questões que achamos urgentes…

Até que dá uma merda. Aí tomamos jeito. Por algum tempo…

Ah, a natureza humana…

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3 comentários em “A cultura da gambiarra”

  1. Adorei esse texto! É perfeito, é isso mesmo e todo mundo faz… Até que dá uma merda…
    Sobre a escalada ao Everest, você falou do livro, mas acho que o filme “Everest” é a versão filme do livro. A história é essa mesmo, imagino que muito mais concisa. Eu não sabia que era real. Tá vendo, você é cultura, a gente sempre aprende algo!

    Curtido por 1 pessoa

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